terça-feira, 3 de abril de 2012

A maldição do Catar

A foto acima mostra algo pouco usual... até a temporada passada. Valentino Rossi partindo da última fila de um grid da MotoGP. O ano era 2004, a corrida era o primeiro GP do Catar –  que era, até 2008, disputado de dia.

O motivo dessa classificação desastrosa foi único. Sendo a corrida a primeira na pista de Losail, e sua localização no meio do deserto, o circuito durante os dois dias de treino encontrava-se bastante sujo com a areia que naturalmente era trazida pelo vento. A mínima escapada do traçado era uma ida quase que certa às quilométricas caixas de brita catarianas.

Desse modo, Valentino Rossi e Max Biaggi na sexta à noite (a corrida foi no Sábado) fizeram uma pequena malandragem. Partindo de posições intermediárias - respectivamente 8º e 12º - ambos foram ao grid limpar e emborrachar suas posições de largada. Na manhã da corrida, o fato chegou aos ouvidos da Honda – que tinha Sete Gibernau 39 pontos atrás de Rossi no mundial. Era um fato sem precedentes, com isso, a montadora japonesa explorou sua influencia junto à direção de prova. Com a prova das câmeras de segurança do circuito, Max e Rossi tiveram acrescidos a seu tempo de classificação seis segundos, indo para o fim do grid. Para não obter vantagem, ninguém largaria de suas posições originais.

Volto sua atenção de novo à foto do post. É possível perceber pelo “body-language” de Rossi a largada furiosa que ele fez. Atente-se ao fato de que Valentino já tinha no momento do clique os dois pés nas pedaleiras, enquanto todos ainda estavam fazendo pressão na frente das motos com um pé pra fora. Sem queimar a largada, o italiano foi de penúltimo para 9º na (pasme) primeira curva.

Rossi estava impossível. Em quatro voltas, o piloto da Yamaha era o quarto colocado atrás de Edwards, Checa e, do líder, Gibernau. Uma volta depois, o excesso de velocidade acabou com sua corrida, depois de ter tocado sua roda traseira na grama após a zebra externa da penúltima curva.


Gibernau venceu a prova. A diferença dos dois iria para 14 pontos no campeonato com três corridas para o fim. Valentino e Sete já não eram mais tão amigos como um ano antes. Esse GP foi o estopim para o início de uma rivalidade ferrenha entre os dois. Uma semana depois, na Malásia, ambos foram convocados para a entrevista coletiva organizada pela Dorna. Não trocaram olhares uma vez sequer. Valentino quando indagado sobre os acontecimentos do Catar, disse ter esquecido tudo. Após, falando exclusivamente para a imprensa italiana, Rossi disse que Gibernau nunca mais ganharia outra corrida.

Mais furioso ainda, Rossi venceu sem dar chance a ninguém em Sepang. Na comemoração deu a cutucada em Sete, que teve uma prova desastrosa e foi apenas o sétimo.



Quinze dias depois, Valentino levaria o título (seu primeiro na Yamaha) por antecipação depois de passar Gibernau na última volta do GP da Austrália. Com tudo definido, Valentino ainda levou o GP de Valência no fim do ano, sendo assim, Sete não venceu mais corridas em 2004.

Em 2005, a rivalidade de Sete e Valentino encontrou seu ápice na primeira prova do ano. Depois de disputarem a prova inteira e abrirem para os demais competidores mais de 20 segundos, os dois chegaram à última volta emparelhados com Rossi na frente. Porém, num erro, Valentino deu de bandeja seu primeiro lugar ao espanhol no hairpin Dry Sack. Rossi não se deu por vencido e tentou na antepenúltima curva uma ultrapassagem, levou o 'X', e na última curva enfiou sua moto na linha de dentro e acertou o ombro de Gibernau, jogando-o fora da pista.

O espanhol ainda foi o segundo, mas fora visivelmente “o derrotado” ali. Apesar de ter recebido vaias de todos os presentes no autódromo, Rossi comemorou como poucas vezes.  A inimizade chegou a tal ponto que os dois quase chegaram “às vias de fato” no Parc Fermé.

 

Uma semana depois, Gibernau liderava o GP de Portugal que tinha chuva em sua primeira seção de curvas. A poucas voltas do fim, quando pressionado por Alexandre Barros, o espanhol passou do ponto na primeira curva da pista e caiu; fim de prova. Na China, Gibernau foi pole; e na corrida chuvosa, foi superado pelos inspirados Valentino Rossi e Olivier Jacque. Tinha o terceiro na mão, até que um problema de motor nas últimas voltas o fez abrir mão de seu pódio para seu companheiro de equipe, Marco Melandri.

Foi segundo na França e na Catalunha, mas voltou a cair na Itália. O começo de ano não tinha sido bom, mas Gibernau tinha uma oportunidade de ouro para vencer a nona etapa, na Inglaterra. Sendo um dos melhores pilotos (se não o melhor) na chuva, Sete disparou no início. No entanto, caiu sozinho ao fim da quinta volta já cinco segundos a frente do resto. Na Alemanha, mais problemas. Depois de liderar a segunda metade quase completa da prova em Sachsenring, Gibernau errou na primeira curva da última volta, fazendo a vitória ir para o colo de Rossi. Sete foi o segundo... o  que mais tarde seria o último pódio do espanhol na vida.

Na Rep. Checa, Sete era o segundo na última volta, quando, na subida para a linha de chegada, seu combustível acabou, lhe deixando na mão. Com o desespero de não conseguir reverter o início de ano ruim, Sete cometeu mais erros ainda nas provas que faltavam. Veja a seguir um vídeo das desventuras do espanhol (peço desculpas pela trilha sonora... aliás, peço nada):

 

Em 2005, Sete conseguiu a proeza de largar 14 de 17 vezes possíveis na primeira fila e não conseguir uma vitória. Para 2006, o espanhol mudou de ares. Foi para a Ducati. A montadora italiana havia feito uma excelente pré-temporada. Gibernau e Capirossi andavam sempre entre os 5 primeiros nos treinos. Para a primeira corrida do ano, os dois fizeram dobradinha no grid – Loris na frente, e Sete em segundo. A prova para Gibernau foi curta. Já na segunda volta ele abandonou com problemas no motor.

Na sexta etapa, em Mugello, finalmente o espanhol largou na pole – sua primeira na Ducati. Aquele dia parecia ser de Gibernau, mas o azar (ou maldição, como queiram) trabalhou contra de novo. Nas últimas voltas, o protetor de pé da sapatilha de Gibernau caiu, e Sete teve que fazer o fim da prova com o pé sangrando. Não fez melhor do que um quinto.

Na Catalunha, próxima prova, Gibernau protagonizou talvez um dos maiores acidentes em largadas  da história da MotoGP. Para escapar da linha branca de saída dos pits, Sete colocou sua moto à esquerda e, quando tocou em Capirossi, seu freio travou.

 

Melandri (que quase foi decapitado pela roda traseira de Dani Pedrosa), Capirossi (desmaiado) e Gibernau foram os mais afetados na batida. O espanhol quebrou a mão, a clavícula e sofreu uma concussão, além do curioso detalhe de sua ambulância ter batido a duas quadras do hospital – ainda que não agravando o estado do piloto. Sete ficou duas corridas fora, graças às contusões; voltou para os GPs da Alemanha e Laguna Seca. Após eles, mais problemas. A placa de titânio na clavícula do espanhol havia saído do lugar, o que o levou a outra cirurgia e outra prova perdida.

Sete voltou a velha forma no fim do ano, apesar de a Ducati não ter mais a melhor moto. O espanhol teve um pódio na Austrália arrancado na última curva por Rossi, após ter liderado boa parte da corrida. Na penúltima corrida do ano, Sete era o sexto na segunda volta, quando Casey Stoner caiu na sua frente e o fez não ter para onde ir. Gibernau, na queda, machucou novamente a clavícula da Catalunha e estava fora da última prova em Valência. Coincidência ou não, quem venceu a prova espanhola foi seu substituto, o australiano Troy Bayliss. 

Sete resolveu se aposentar, pois segundo o mesmo “não se divertia mais correndo e não o faria só por dinheiro”. 

No ano seguinte, Stoner foi para seu lugar na Ducati e sagrou-se campeão do mundo. O espanhol ainda voltou para a MotoGP em 2009, depois de ter sido cotado na Ducati em 2008 para substituir seu ex-companheiro de equipe Melandri. A moto era uma Ducati, numa equipe satélite que não teve dinheiro para concluir a temporada. A última corrida de Sete foi em Laguna Seca, no início de Julho.

Maldição ou não (acreditem nisso, ou não), a carreira de sucesso do espanhol #15 foi dividida em duas depois daquele primeiro GP do Catar. Inegável. No mínimo, bem curioso.

3 comentários:

Daniel Machado disse...

Chuta que é macumba viu kkkkkkkk Mais azarado que um Stefan Johansson da F1 ai kkkkkkkkkkk

Marcos Antônio Filho disse...

como fã do Valentino, não me fez falta esse tal de Gibernau...bem feito! rsrsrsrsrs

belo post nunca tinha reparado na zica dele...

Eduardo Casola Filho disse...

O Gibernau é o Chris Amon da Moto GP!