terça-feira, 13 de março de 2012

Rivalidade B


Há 20 anos Mansell e Senna disputavam a última corrida juntos. Talvez essa rivalidade não tenha ficado em primeiro plano na carreira de ambos – já que os dois tinham outros algozes com mais história (Piquet e Prost, respectivamente) – mas, sim, ela existiu. O GP na Austrália que marcou o último encontro dos dois, também foi cenário de duas grandes despedidas.

A primeira era a do próprio Mansell, que estava de saída da Williams após o time ter assinado com Alain Prost para 1993 sem consultá-lo. Nigel já havia tido um ano de desavenças com o francês na Ferrari, em 1990, e não pagaria pra ver outra temporada desagradável com Alain ao lado. Mas, de qualquer forma, antes disso, a própria Williams já havia tomado sua decisão. Achava besteira conservar nitroglicerina pura (Prost e Mansell) dentro de casa, tanto do lado da convivência, quanto do lado monetário (campeão do mundo em 1992, Nigel pedia mais dinheiro do que Frank Williams queria pagar).

Dispensado, Mansell tomou uma decisão bastante corajosa. Sem boas equipes com assentos disponíveis na F1, deixou a categoria e resolveu se aventurar na Indy. Sendo ainda o atual campeão do mundo, sua atitude foi tida quase como heresia... porém, melhor assimilada quando “red five” levou o título da temporada de 1993 com cinco vitórias, apenas uma delas em circuito misto.

A segunda despedida era a da Honda como fornecedora de motores. Nos anos seguintes, os japoneses ainda teriam propulsores equipando carros na F1, mas preparados pela Mugen (companhia do filho de Soichiro Honda, Hirotoshi), não mais pela fábrica. A Honda, propriamente dita, voltaria à F1 apenas em 2000, fornecendo motores à B.A.R. - equipe que compraria seis anos depois.

Senna, com a saída da Honda, também procurava uma oportunidade de se despedir da McLaren, que não passava por um bom momento. Mas, após o veto contratual de Prost na Williams, o melhor que Ayrton podia ter para 1993 era o time inglês.

Nenhum palco mais apropriado para uma última corrida – arrisco dizer que na história da F1 – do que Adelaide, na Austrália. Tendo a tradição de encerrar as temporadas com ótimas provas, o GP da Austrália em 1992 poderia ser o cenário de algumas quebras de recordes. Mansell vinha com a missão de levar pole position e vitória para si. A primeira lhe daria o número absoluto de 14 em 16 poles numa temporada (recorde batido por Vettel em 2011); a segunda, lhe faria ser o único na história a ter vencido 10 provas em um ano até ali.

Mansell conseguiu a pole. No entanto, a vantagem que se viu durante o ano inteiro da Williams para os demais carros não foi tão grande. Se enfiando entre os dois carros azuis de Grove estava Senna, em segundo, logo à frente de Patrese. Berger, se despedindo da McLaren, foi o quarto. A McLaren não fez sombra à superioridade da Williams a temporada inteira, mas seu grande ponto forte eram os circuitos de rua. Em Mônaco, ainda que ajudado pela sorte, Senna venceu. No Canadá, conseguiu tirar a única pole position do ano da Williams, e Berger conquistou a vitória.

O GP da Austrália prometia, principalmente, após as primeiras voltas. A McLaren com tanque cheio e pneus gastos era progressivamente mais rápida que a Williams naquele fim de semana. A melhor possibilidade que Mansell tinha de controlar a corrida era pular bem na largada.

Foi o que ele fez. Largou perfeitamente, mas Senna estava à espreita de qualquer falha do campeão. Nigel ziguezagueou na reta Brabham para evitar qualquer tentativa de Ayrton na primeira volta. Mesmo assim, o brasileiro mergulhou na entrada do “hairpin” para passar Mansell. Passou... mas levou o “X”.

Senna voltaria a pressionar a Williams #5 nas voltas seguintes. A diferença não passaria de dois segundos. Senna fazia voltas mais rápidas atrás, Mansell respondia na frente. O ritmo dos dois era fantástico. Em 18 voltas, já haviam aberto perto de 20 segundos para Patrese, em terceiro. Uma volta depois, os dois primeiros chegariam a três retardatários. O primeiro deles era a Ferrari de Nicola Larini. Nigel teve problemas pra se livrar do italiano, e permitiu a Senna, com seu senso oportunista aguçado, encostar.

Ayrton, vendo Nigel tão perto, foi decidido. Tentaria aproveitar-se de imediato, ainda que fora de um bom ponto de ultrapassagem. Na última curva, a falta de espaço e afobação de Senna fizeram com que ele perdesse a traseira de seu carro ao tardar a freada para se adiantar... e, por fim, acertasse Mansell. O McLaren de Senna virou um triciclo, e o Williams de Mansell apagou seu motor após parar de costas na grama. Aquele era o fim.


Um fim condizente para uma disputa que sempre dava o que falar. Desde a primeira, em Brands Hatch em 1985 – após Rosberg dar uma segurada duvidosa em Senna, para Mansell passá-lo e conquistar sua primeira vitória. Passando pelos 14 milésimos em favor de Senna na chegada do GP da Espanha de 1986; pelo toque polêmico dos dois na Bélgica em 1987; pelo acidente bizarro no GP de Portugal de 1989 – quando Mansell, desclassificado por dar ré nos pits, tirou Senna da prova; da carona na Inglaterra em 1991; das faíscas dançantes na Espanha em 1991; e, claro, da saída de pista do Leão tentando alcançar Ayrton no início do GP do Japão do mesmo ano – concedendo o último título ao brasileiro.

Em 1992, o duelo começou com uma fechada de Senna em Nigel durante os treinos em Interlagos. Passou pelo épico GP de Mônaco, e terminou com a batida em Adelaide. Uma das mais legais rivalidades da F1... ainda que sempre vista em segundo plano.

Dois anos depois, em 1994, Mansell, recém-saído da Indy, venceria sua última corrida na F1 pela mesma Williams. Justamente na Austrália, justamente a bordo do carro em que Ayrton Senna perdeu sua vida em 1º de Maio do mesmo ano. Pura coincidência poética, dois anos depois de os dois terem se falado pela última vez.

Quanto àquela corrida, Berger venceu; mesmo após enfrentar apuros com o medidor de combustível nas voltas finais, que acusava erroneamente que não havia gasolina para terminar a prova. Schumacher, mais de 10 segundos atrás durante quase toda a prova, chegou encostado em sua McLaren, que virava cinco segundos mais lenta que a Benetton alemão. Gerhard ganhou a prova e ainda deu a volta da vitória sem parar por pane seca. Patrese quebrou seu motor enquanto era o primeiro, pressionadíssimo por Berger (de pneus novos), na volta 50.

2 comentários:

Ron Groo disse...

Senna teve muitos rivais a sua altura... Mas considero Mansell o menor deles, apesar de ser um piloto maravilhoso.
Digo isto porque se Senna batia Prost com regularidade, porque não bateria Mansell?

Marcos Antônio Filho disse...

era uma rivalidade forte, mas Senna e Mansell se respeitavam bastante. Bem, não é a toa, que são dois dos meus pilotos preferidos de todo o sempre!